Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos
de João Monlevade

Filiado à CNM/CUT

PROJETO MEMÓRIA - Centro de Referência e Memória do Trabalhador (Cerem)

 

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Geraldo Oscar de Menezes

Nasceu em São Braz do Suaçuí (MG), em 13/11/1921 Começou a trabalhar na Companhia Siderúriga Belgo-Mineira no dia 2612/1940. Foi presidente do sindicato no período de 1959-1964. Seu segundo mandato foi interrompido pelo golpe militar.

 

     
Identificação e família

nascimento

EDUCAÇÃO

primeiro emprego

INGRESSO NA BELGO-MINEIRA

O INTERESSE PELO SINDICALISMO

candidatura e eleição

obras no sindicato

benefícios sociais

a libertação

o golpe de 64

Ida para BH

sobrevivência

ida para outro branco


 

 

 
Identificação e família

Meu nome é Geraldo Oscar de Menezes, sou filho de Eusébio Oscar de Menezes e Augusta Carolina Pena, já falecidos. Meus pais eram agricultores, trabalhavam na roça. E eu via a dificuldade que meu pai tinha para tratar da família, eu sempre procurei me orientar para uma coisa maior e que eu pudesse tratar de minha família de acordo com as possibilidades e com a evolução da... do tempo.

 

Nascimento

Nasci em São Braz do Suaçuí, uma cidadezinha pequena aqui pertinho de Ouro Branco. Fica entre Conselheiro Lafaiete, Ouro Branco e Entre Rios de Minas. Em 13/11/1921, às nove e meia da manhã.. Naquele tempo não existia hospitais, eram parteiras. E quando a parteira pegou-me pelos pés e deu para minha mãe, disse pra ela a seguinte frase [trecho não claro]: “nasceu um homem”.  

Eu sou o terceiro [filho] dos homens. Nós éramos seis homens e três mulheres [dúvida: total de nove?].

 

Educação

Eu, como, naquele tempo, os estudos eram muito diferentes dos atuais, eu estudei com muita dificuldade, andando quilômetros e mais quilômetros a pé, porque não havia condução. (...) Eu, infelizmente, estudei só o curso primário. Porque, naquela época, não existia ginásio. As professoras não eram como hoje, não eram professoras, eram consideradas mestras... Eu tive uma muito boa mestra, que foi a esposa de um farmacêutico que tinha lá na minha terra, dona Dolores.

Me ensinou e estudei até o quarto ano primário, porque, na minha época, só existia primeiro, segundo, terceiro e quarto ano primário. O primário completo eu não completei porque meus pais houve por bem mudar para Belo Horizonte... Em 1932, nós mudamos para Belo Horizonte.

 

Primeiro emprego

Em Belo Horizonte, comecei a trabalhar muito novo para que pudesse ajudar meu pai e minha mãe para a manutenção da família. E, infelizmente, perdi meu pai muito novo; ele morreu com a idade de 40 e poucos anos.

Antes de ir trabalhar na Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, eu trabalhei com entrega de leite a granel, na cidade de Belo Horizonte. Aí, foi aonde eu pude conhecer bem Belo Horizonte. Mais tarde, como o emprego de entregador de leite não estava dando mais resultado, resolvi então procurar uma coisa melhor, comecei e trabalhar como servente de pedreiro, lá em Belo Horizonte. E, como servente de pedreiro, cheguei a aprender a profissão de pedreiro. Mas não segui porque vi que não era aquilo que eu pretendia. Eu queria aprender coisa melhor, para dar melhor condição de vida aos meus familiares.

 

Ingresso na Belgo-Mineira

Aí foi que surgiu na minha vida uma moça, que hoje é a mãe dos meus filhos. Moça essa que tinha um irmão que trabalhava como guarda-chaves lá em Monlevade. E ela falou comigo que, lá em Monlevade, tinha possibilidade de esse irmão arrumar serviço pra mim... Interessado no namoro que tínhamos começado e interessado nela, para que fosse a mãe de meus filhos, eu resolvi ir para Monlevade e, como de fato, assim o fiz, chegando lá em 26 de dezembro de 1940. Foi o dia em que eu comecei a trabalhar na Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. (...)

Aí, fui trabalhar no laminador, que hoje nem existe mais. Comecei a trabalhar no laminador como um simples contínuo, carregando café para os estrangeiros, que a maioria dos mestres e contra-mestres que tinha dentro do laminador era tudo estrangeiro. Eu comecei carregando, buscando café na casa dos estrangeiros, mas visando sempre, no laminador, progredir, aprender as coisas. Então, quando tinha qualquer desarranjo nas máquinas, porque nós trabalhávamos com cilindros, e eu ia observar como eles faziam para fazer a troca, fazer o câmbio, né?, das peças. Não só observava como ajudava também a fazer. E assim foi indo que eu passei a também me interessar por um outro ramo de trabalho que tinha lá no laminador, que é serpenteador, apesar de ser um serviço ingrato, porque era um serviço pesado e muito prejudicial à saúde.

 

Era um serviço tão perigoso que, inclusive, houve um fato lamentável no dia 29 de junho de 19... e... 195..., não tenho assim a data exata. O dia eu sei que era 29 de junho, porque era dia de São Pedro. Houve um acidente muito grave lá com um estrangeiro... , nosso mestre [não deu pra entender o nome] veio a falecer por motivo de acidente. Isto aconteceu comigo dentro do laminador. E eu fui procurado para [melhorar] minha situação dentro do serviço (...)

Aí, comecei a trabalhar como contramestre e, na falta do mestre, eu ocupava o cargo do mestre do laminador. E aí foi melhorando.

 

As razões do interesse pelo sindicalismo

E outra coisa que eu achei muito e acho até hoje, não se se existe ainda... Lá em João Monlevade tinha uma coisa muito ruim, que era a diferença entre o mensalista e o horista. Eu não sei isso ainda existe até hoje. Mas no meu tempo existia. O mensalista, que era o que ganhava por mês... Porque tinha a diferença do horista, que ganhava por hora. Se você trabalhava tantas horas, você ganhava tantas horas. Agora, o mensalista, não; se você trabalhasse duas horas, você ganha o mês todo. Se você trabalhasse 380 horas, você ganhava o mês. Outra diferença que existia também e que deve existir até hoje é a diferença entre o brasileiro e o estrangeiro. Que, na verdade, o estrangeiro tinha que ganhar um pouco mais porque ele tinha maior conhecimento. Mas muitos brasileiros aprenderam e tiveram conhecimento como eu tive e outros iguais a mim tiveram.

E, vendo aquelas diferenças tão gritantes, tão exorbitantes, eu me interessei pelo sindicato, que, na época, era gerido por um ex-presidente, de cuja memória eu respeito, porque já é falecido: senhor Ambrósio Rodrigues da Costa. Resultado que... eu fazia oposição, mas oposição construtiva. Queria respostas que ele pudesse me dar sobre a diferença gritante que existia e existe até hoje na Belgo-Mineira: a diferença de horistas para mensalistas e mensalista brasileiro para o mensalista estrangeiro.

 

Candidatura e eleição

E interessei tanto pelo sindicato que me candidatei. Me candidatei três vezes consecutivas. E todas as três vezes eu perdi com uma larga margem de votos, porque não tinham confiança em quem era mensalista. (...)

E, quando eu me candidatei pela quarta vez ao cargo de presidente eu fui eleito, com uma diferença pequena, mas fui eleito. E quando eu fui eleito, sofri uma pressão muito forte, mas muito forte mesmo. Não só por parte da companhia, que ela tinha lá os seus prepostos, que mandavam e desmandavam no sindicato, como pela ex-diretoria que tinha sido derrotada e por muitos e muitos membros, companheiros do sindicato, que ainda não tinham confiança comigo.

Eu tive que trabalhar forte, trabalhar com todo afinco, todo afã para poder ganhar a confiança de meus comandados.

 

Obras no sindicato

Quando eu fui para o sindicato, a sede era um barracãozinho encostado num muro de pedra, que estava caindo aos pedaços. Não só a sede, a ex-sede do sindicato, que era num pracinha que eu não sei o nome hoje. Os móveis estavam todos podres, porque ninguém que passou por esse sindicato, nem o ex-presidente que eu substituí, como os antecessores, se interessaram pelos móveis do sindicato. Agora, tenho que fazer uma ressalva: meu antecessor ele foi..., lutou também com muita dificuldade para conseguir iniciar a construção de uma sede na rua Tieté. ... A da rua Carijós foi a que ele começou. Ele descontou, teve um desconto na mão, na folha dos operários para construir a sede. E deixou, isso ele deixou, honra seja feita, dinheiro suficiente para que fosse paga a construtora que construiu essa sede de três andares da Tieté, a construtora Barbosa Roscoe, não se se existe ainda essa construtora. De forma que isso eu tenho que louvar esse presidente que ele deixou. Mas só deixou a sede começada. A sede foi terminada por mim, foi mobiliada por mim através de concurso.

Mas a sede do sindicato foi mobiliada por mim, desde o terceiro pavimento até o primeiro. E tudo, fiz isso através de licitação, por concurso público. Ganhou a maior marca de móveis, parece, se não me falha a memória, Elmo. De forma que eu fiz a inauguração da sede, eu fiz o mobiliário da sede, e começamos a trabalhar na sede nova. Eu e todos os funcionários da companhia, cujo nós... do sindicato, cujo nós temos ainda hoje vivos lá em Monlevade... a Nilza Roberto, que foi uma ex-secretária muito eficiente. Eu tenho até um retrato dela, porque eu fui lá a pouco tempo e vi o retrato mais ela. Eu sentado no carro do meu filho Gerson. 1959.

 

E, posteriormente, eu concorri com mais cinco chapas, sendo que essas cinco chapas que concorreram contra a minha pessoa... eu concorri à reeleição. Os votos que as cinco chapas ganharam não eram a metade do que eu ganhei. Ganharia com a maioria absoluta. Fui reeleito uma vez. Fiquei a primeira vez dois anos, depois fui reeleito pra ficar mais dois anos. Praticamente, entrei no sindicato foi em 1960. Tomei posse em 60.

 

Benefícios sociais no sindicato

Eu gostaria de deixar bem claro com referência à sede do sindicato de João Monlevade o seguinte: que, quando eu inaugurei a sede do sindicato, eu deixei lá, para benefício dos meus companheiros associados, uma funerária funcionando no terreno do sindicato. (...) A única coisa que os familiares, que os associados dos familiares do associado que falecia tinha que apresentar era apenas o atestado de óbito e o tamanho do associado para que fosse confeccionado o caixão. E os caixões lá eram todos de um tipo só, não tinha negócio de caixão especial pra um nem pra outro, tudo era igual. E outra coisa também que eu quero deixar claro, é o seguinte: quando eu saí do sindicato, eu deixei mais três veículos: tinha um carro funerário próprio, tinha uma jardineira, que fazia o transporte da diretoria, aliás, não era bem uma jardineira, era um espécie de uma kombi, fazia o transporte da diretoria, e, além disso, deixei um caminhão também. Todos eles em perfeito estado de conservação e funcionando.

E deixei mais: dentro da sede do sindicato, uma farmácia, não do sindicato, porque o sindicato não podia e não pode ter nada que venha ser explorado em benefício próprio, mas sim em favor dos associados. Deixei uma farmácia completa, com remédios populares para todos, vendidos para os operários, mais barato. E isso aconteceu durante a minha gestão. Deixei também um cômodo da sede do sindicato com quatro cadeiras de barbeiro funcionando em pleno vapor, com todos os materiais assentados para que os barbeiros pudessem aparar a barba e o cabelo de todos os meus associados com desconto de 50% do preço da praça. Tudo isso eu fiz com o único interesse de beneficiar os associados, e não com o interesse do sindicato ganhar dinheiro. 

 

O golpe de 64 e a saída do sindicato

Fiquei até 1964, até a revolução de 64. Gostaria de deixar [registrada] também uma passagem muito triste que eu tive no sindicto, quando eu fui preso, eu tive os meus direitos políticos cassados. Porque, além de ser presidente do sindicato, eu fui vereador da comarca de Rio Piracicaba por duas legislaturas consecutivas. Eu era do PDT, não, PTB. Eu era do Partido Trabalhista Brasileiro. E quero deixar bem claro uma coisa pra vocês também. Foi uma das coisas que eu fiz com maior prazer foi ser representante nem só dos operários de João Monlevade, como também do município de Rio Piracicaba. Na época eram três anos. Foi de 58 a 61, 61 a 64.

[Quando houve eu golpe, eu] estava ainda eu atividade, não só como presidente do sindicato, como também vereador de Rio Piracicaba. (...) Então, o pessoal de Rio Piracicaba que já tinha uma pequena desavença com todos os vereadores de João Monlevade, eles aproveitaram e nos afastaram também da Câmara de Vereadores, (...) Eles nos afastaram e lá já viemos, de dentro da Câmara Municipal de Rio Piracicaba, presos. Eu, Geraldo Oscar de Menezes, Zacarias Assunção, vocês lembram muito bem que foi, quem era Zacarias Assunção lá em Monlevade, era um enfermeiro. Nós saímos presos lá da Câmara, já viemos direto para o Dops, Departamento de Ordem Política e Social, de Belo Horizonte. Ali nós ficamos presos por 30 dias.

Eu quero dizer pra vocês também, quero deixar bem claro, que fique bem gravado: nosso presidente, Luís Inácio Lula da Silva também foi um grande sindicalista. Eu posso dizer pra vocês o seguinte: ele esteve preso 31 dias e eu tive 30 dias.  Ele teve num mês de 30 dias, eu tive num mês de 30 dias. Mas graças ao pai celestial e com muita honra tanto para ele como para eu, nós nunca negamos as nossas origens, mesmo sendo um simples operário metalúrgico. (...)

 

A libertação

Eu tenho que agradecer à minha esposa que, além de ser mãe de meus filhos, é uma esposa dedicada e, através dela e de conhecimentos que tive quando estava no sindicato, um antigo deputado, doutor Austregésilo Mendonça... Ela se empenhou com esse deputado e ela foi à IT4 [?], na rua Santa Catarina, que era sede da IT4 e aí ela ficou várias e várias horas passando fome, passando humilhação, porque eu já estava preso há mais de 20 dias e ela desesperada porque sentia saudades [?] do pai dos filhos dela como também do companheiro. Até que ela, através de pedidos de um dos diretores da IT4, um general, que me falta o nome agora de memória, ele se interessou e deu a ela uma autorização para ir lá no Dops e solicitar do dr. Davi, que era o diretor do Dops, a minha soltura porque eu já tinha mais de 30 dias que estava preso. Foi através dela e desse deputado, ex-deputado federal, dr. Austregésilo Mendonça [/ininteligível/], ex-coronel, conseguiram a minha libertação.

 

[...] Quando ela conseguiu a minha libertação, eu estava detido no Dops. E eles achavam que eu estava residindo em João Monlevade. Falaram comigo... dr. Davi ainda brincou comigo: ó, você pode ir embora, que você vai ter que viajar para João Monlevade hoje. Eu falei pra ele: não, eu vou ficar aqui de hoje para amanhã, porque eu estou morando, atualmente, aqui em Belo Horizonte, no bairro Padre Eustáquio. Morava no bairro Minas-Brasil. E aí ele falou: quem sabe você quer ficar mais tempo? Eu falei: Deus me livre, doutor.  Eu estou dando graças a Deus que o senhor está me dando ordem de saída. E depois eles viram que eu não tinha nada daquilo que eles falavam. Fizeram uma representação contra minha pessoa, ajudados, é claro, por alguns diretores ds Belgo-Mineira, porque eu fazia exigências “absurdas”. A Companhia Belgo-Mineira [disse] que eu era arrogante. Eu fazia exigências tão “absurdas”... as exigências que eu fiz, todas elas eu ganhei, uma através de greve. Agora, quero deixar bem claro: [muito ruído] ela pagava pouco, mas pagava direitinho.

Eu lutava para que meus colegas de trabalho tivessem um pedaço de pão maior na mesa para seus filhos. Porque eu via a diferença que havia entre a alimentação que um brasileiro humilde como eu ... [ muito ruído]. Então eu queria que a companhia reconhecesse que o operário é que, que o operário brasileiro é que dava pra ela o lucro que ela ganhava, que ele é que dava pra ela toda a riqueza que ela possuía.

 

A ida para Belo Horizonte

O caso é o seguinte: vim morar em Belo Horizonte na casa de minha irmã, que hoje não existe mais. Vim morar com minha irmã, vim morar de favor na casa dos outros. (...) quando saí de João Monlevade, me escorraçaram lá de João Monlevade, dizendo que eu tinha que entregar a casa, que a casa era da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, eu tive que sair de uma hora para outra, larguei tudo que eu tinha lá. Não tinha nada de valor, mas tinha valor estimativo, [tal como] cama, colchão, guarda-roupa, armário.  Geladeira eu tinha porque ganhei, os operário me deram. Tive que deixar tudo para trás [para que] entregasse a casa limpa, vazia, fisicamente, de pessoas. Então, eu tive que sair correndo [quase?] de João Monlevade. E assim o fiz e entreguei a casa limpa fisicamente, só ocupada dos meus cacarecos.

No outro dia, meu filho mais velho é que tirou a mudança de lá num caminhão emprestado pela companhia de um grande conhecido que eu tinha lá, que é o José de Castro Filho. Então, ele emprestou o caminhão para que meu filho pusesse as coisas que eu possuía, que estava ocupando espaço físico dentro da minha residência e veio... minhas coisas vieram para Belo Horizonte. Ficaram num lugar que eu nem sabia onde era, porque, na época em que meus móveis vieram, eu não tinha ainda casa, eu estava na casa de minha irmã e lá não cabia minhas... [/ininteligível/]. Posteriormente, é que eu fui as poucos... adquiri uma residência lá no bairro Minas-Brasil, sem água, sem luz e com as maiores dificuldades, eu tive que entrar para dentro da casa no escuro. Na época, eu tinha 8 filhos... Quero esclarecer o seguinte: eu tinha dois filhos, tinha não, tenho dois filhos que trabalharam na Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, daí, posteriormente vieram... [/ininteligível/]. Um é esse aqui. O outro é... também vocês vão conhecer. O mais velho tinha vinte e pouco anos. E tinha recém-nascido. E tiveram que mudar comigo, de uma hora para outra. [/ininteligível/].

 

A luta pela sobrevivência

Eu gostaria de deixar claro que, quando eu mudei pra minha casinha, que não tinha luz nem água direito, eu comecei a batalhar para que eu pudesse trabalhar com... trabalhar para que eu pudesse dar à minha família aquilo que eles mereciam e têm direito, que todo ser humano tem direito, o alimento e cama. Aí fui em várias companhias em Belo Horizonte, e todas elas me fecharam as portas. Quando eu vi que não tinha mais condição de trabalhar nas siderúrgicas, que era a única profissão que eu sabia, metalúrgico, eu resolvi ir para São Paulo.

 

Mas, antes de mudar para São Paulo, eu consegui, na casa onde eu morava, abrir um pequeno bar, na esquina da rua onde eu morava, que era uma pracinha, mas como eu sempre tive como princípio, nunca colaborar pra a desgraça de meus semelhante, eu achei que vender pinga, vender cachaça para aquelas pessoas que, às vezes deixavam de levar um pão para casa, para beber uma cachaça, eu achei que aquilo não estava bem e resolvi abandonar a profissão de vendeiro e mudei para São Paulo. Lá em consegui, em uma firma,a mesma profissão que eu tinha lá no laminador de Monlevade, eu já entrei lá como encarregado geral. E trabalhei pouco tempo, porque adoeci, não tive mais condições físicas de continuar trabalhando. Mas, na minha profissão lá, eu fui mestre de laminador também em São Paulo, fazia o câmbio que... em Monlevade era troca que nós fazíamos e, em São Paulo, o nome era câmbio. A troca que nós fazíamos era câmbio. E eu trabalhei nessa firma pouco tempo, porque adoeci, tive que voltar novamente para minha família, para Belo Horizonte.

 

Quando eu fui para São Paulo a primeira vez, eu fui sozinho. Da segunda vez, eu fui com minha família. Agora, eu quero dizer também o seguinte: eu lutei com muita dificuldade... a segunda vez que eu voltei para São Paulo, porque não encontrava emprego mais em Belo Horizonte, eu fui trabalhar num serviço completamente diferente que eu nunca tinha pensado em minha vida que teria um dia. Mas volto a dizer pra vocês: trabalho dignifica o homem. A gente não deve menosprezar trabalho por pior que ele seja. Eu fui zelador de uma instituição católica... católica não, uma instituição que existe até hoje, da qual eu faço parte como servo de Deus. Que é a Igreja de Jesus Cristo [dos Santos?] dos Últimos Dias, popular, vulgarmente conhecida como igreja dos Mórmons. Eu trabalhei como zelador nesse templo, já nesse tempo, nessa igreja, muito tempo. Foi um ano e [uns] meses.

 

Posteriormente, saí, porque achei um outro que me dava mais interesse porque, sem ter conhecimento nenhum, fui ser gerente de um pequeno supermercado lá em Santos. Também trabalhei pouco tempo porque, infelizmewnte, o serviço lá era muito pesado e eu não andava nada bom de saúde, até que tive que voltar, devido à minha saúde, definitivamente para Belo Horizonte, até que vim ser aposentado por invalidez. Quando fui aposentado por invalidez, estava com a idade de setenta e poucos anos. Setenta não, minto, tava com sessenta e poucos anos de idade, porque tenho mais de 20 anos que tô aposentado, agora, não como inválido, mas agora fui aposentado pela Lei da Anistia,

 

A ida para Ouro Branco

Em 1995, eu já estava cansado de ficar na cidade grande, que era Belo Horizonte, e eu tinha e tenho um filho que morava e trabalhava lá em Ouro Branco e foi, fez o convite para eu vir morar numa cidade do interior. Aí nós mudamos em 1985, mudamos aqui para Ouro Branco. Eu vim para cá para poder ter... Eu vim para cá, porque meu filho mais velho nos convidou e vim para morar na casa dele. Meu filho trabalha na Açominas, trabalhava. Hoje ele é aposentado também.

 

Toda vida eu tive esse sonho: ter minha casa própria. Porque, igual eu tava falando com vocês: morei lá em Monlevade, sempre morei em casas boas, não vou negar para vocês que, nesse ponto aí, a companhia também tinha, dava seus barracos. (...) Mas tinha casas boas especiais para os estrangeiros e boas, algumas, para alguns brasileiros. E eu sempre tive comigo e por insistência de minha esposa, que ela queria ter o teto nosso, para que nós, na nossa velhice, pudéssemos falar: não, nós moramos no que é nosso, podemos morrer tranqüilos, porque estamos morando no que é nosso. E, ajudado pelo meu filho, que nos deu mais de 10 anos de moradia sem cobrar aluguel, apenas que conservássemos a casa que ele tinha possuído. Deus ajudou que consegui juntar um pouco de dinheiro, compramos esse lote aqui e também com o dinheiro pouco que eu recebi do INSS, comecei a construir, eu não, quem começou foi minha esposa, que o dinheiro que eu recebi do INSS deu pra fazer o alicerce da casa, dessa casa onde hoje nós estamos morando, mas quem construiu praticamente do alicerce até a última telha foi minha esposa, porque eu, na cadeira de rodas, não podia vir aqui nem ver os pedreiros trabalharem.