Identificação e
família
nascimento
EDUCAÇÃO
primeiro emprego
INGRESSO NA
BELGO-MINEIRA
O INTERESSE PELO
SINDICALISMO
candidatura e
eleição
obras no sindicato
benefícios sociais
a libertação
o golpe de 64
Ida para BH
sobrevivência
ida para outro
branco
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Identificação e família
Meu nome é
Geraldo Oscar de Menezes, sou filho de Eusébio Oscar de Menezes
e Augusta Carolina Pena, já falecidos. Meus pais eram
agricultores, trabalhavam na roça. E eu via a dificuldade que
meu pai tinha para tratar da família, eu sempre procurei me
orientar para uma coisa maior e que eu pudesse tratar de minha
família de acordo com as possibilidades e com a evolução da...
do tempo.
Nascimento
Nasci em São
Braz do Suaçuí, uma cidadezinha pequena aqui pertinho de Ouro
Branco. Fica entre Conselheiro Lafaiete, Ouro Branco e Entre
Rios de Minas. Em 13/11/1921, às nove e meia da manhã.. Naquele
tempo não existia hospitais, eram parteiras. E quando a parteira
pegou-me pelos pés e deu para minha mãe, disse pra ela a
seguinte frase [trecho não claro]: “nasceu um homem”.
Eu sou o
terceiro [filho] dos homens. Nós éramos seis homens e três
mulheres [dúvida: total de nove?].
Educação
Eu, como,
naquele tempo, os estudos eram muito diferentes dos atuais, eu
estudei com muita dificuldade, andando quilômetros e mais
quilômetros a pé, porque não havia condução. (...) Eu,
infelizmente, estudei só o curso primário. Porque, naquela
época, não existia ginásio. As professoras não eram como hoje,
não eram professoras, eram consideradas mestras... Eu tive uma
muito boa mestra, que foi a esposa de um farmacêutico que tinha
lá na minha terra, dona Dolores.
Me ensinou e
estudei até o quarto ano primário, porque, na minha época, só
existia primeiro, segundo, terceiro e quarto ano primário. O
primário completo eu não completei porque meus pais houve por
bem mudar para Belo Horizonte... Em 1932, nós mudamos para Belo
Horizonte.
Primeiro emprego
Em Belo
Horizonte, comecei a trabalhar muito novo para que pudesse
ajudar meu pai e minha mãe para a manutenção da família. E,
infelizmente, perdi meu pai muito novo; ele morreu com a idade
de 40 e poucos anos.
Antes de ir
trabalhar na Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, eu trabalhei
com entrega de leite a granel, na cidade de Belo Horizonte. Aí,
foi aonde eu pude conhecer bem Belo Horizonte. Mais tarde, como
o emprego de entregador de leite não estava dando mais
resultado, resolvi então procurar uma coisa melhor, comecei e
trabalhar como servente de pedreiro, lá em Belo Horizonte. E,
como servente de pedreiro, cheguei a aprender a profissão de
pedreiro. Mas não segui porque vi que não era aquilo que eu
pretendia. Eu queria aprender coisa melhor, para dar melhor
condição de vida aos meus familiares.
Ingresso na Belgo-Mineira
Aí foi que
surgiu na minha vida uma moça, que hoje é a mãe dos meus filhos.
Moça essa que tinha um irmão que trabalhava como guarda-chaves
lá em Monlevade. E ela falou comigo que, lá em Monlevade, tinha
possibilidade de esse irmão arrumar serviço pra mim...
Interessado no namoro que tínhamos começado e interessado nela,
para que fosse a mãe de meus filhos, eu resolvi ir para
Monlevade e, como de fato, assim o fiz, chegando lá em 26 de
dezembro de 1940. Foi o dia em que eu comecei a trabalhar na
Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. (...)
Aí, fui
trabalhar no laminador, que hoje nem existe mais. Comecei a
trabalhar no laminador como um simples contínuo, carregando café
para os estrangeiros, que a maioria dos mestres e contra-mestres
que tinha dentro do laminador era tudo estrangeiro. Eu comecei
carregando, buscando café na casa dos estrangeiros, mas visando
sempre, no laminador, progredir, aprender as coisas. Então,
quando tinha qualquer desarranjo nas máquinas, porque nós
trabalhávamos com cilindros, e eu ia observar como eles faziam
para fazer a troca, fazer o câmbio, né?, das peças. Não só
observava como ajudava também a fazer. E assim foi indo que eu
passei a também me interessar por um outro ramo de trabalho que
tinha lá no laminador, que é serpenteador, apesar de ser um
serviço ingrato, porque era um serviço pesado e muito
prejudicial à saúde.
Era um serviço
tão perigoso que, inclusive, houve um fato lamentável no dia 29
de junho de 19... e... 195..., não tenho assim a data exata. O
dia eu sei que era 29 de junho, porque era dia de São Pedro.
Houve um acidente muito grave lá com um estrangeiro... , nosso
mestre [não deu pra entender o nome] veio a falecer por motivo
de acidente. Isto aconteceu comigo dentro do laminador. E eu fui
procurado para [melhorar] minha situação dentro do serviço (...)
Aí, comecei a
trabalhar como contramestre e, na falta do mestre, eu ocupava o
cargo do mestre do laminador. E aí foi melhorando.
As razões do interesse pelo sindicalismo
E outra coisa
que eu achei muito e acho até hoje, não se se existe ainda... Lá
em João Monlevade tinha uma coisa muito ruim, que era a
diferença entre o mensalista e o horista. Eu não sei isso ainda
existe até hoje. Mas no meu tempo existia. O mensalista, que era
o que ganhava por mês... Porque tinha a diferença do horista,
que ganhava por hora. Se você trabalhava tantas horas, você
ganhava tantas horas. Agora, o mensalista, não; se você
trabalhasse duas horas, você ganha o mês todo. Se você
trabalhasse 380 horas, você ganhava o mês. Outra diferença que
existia também e que deve existir até hoje é a diferença entre o
brasileiro e o estrangeiro. Que, na verdade, o estrangeiro tinha
que ganhar um pouco mais porque ele tinha maior conhecimento.
Mas muitos brasileiros aprenderam e tiveram conhecimento como eu
tive e outros iguais a mim tiveram.
E, vendo aquelas
diferenças tão gritantes, tão exorbitantes, eu me interessei
pelo sindicato, que, na época, era gerido por um ex-presidente,
de cuja memória eu respeito, porque já é falecido: senhor
Ambrósio Rodrigues da Costa. Resultado que... eu fazia oposição,
mas oposição construtiva. Queria respostas que ele pudesse me
dar sobre a diferença gritante que existia e existe até hoje na
Belgo-Mineira: a diferença de horistas para mensalistas e
mensalista brasileiro para o mensalista estrangeiro.
Candidatura e eleição
E interessei
tanto pelo sindicato que me candidatei. Me candidatei três vezes
consecutivas. E todas as três vezes eu perdi com uma larga
margem de votos, porque não tinham confiança em quem era
mensalista. (...)
E, quando eu me
candidatei pela quarta vez ao cargo de presidente eu fui eleito,
com uma diferença pequena, mas fui eleito. E quando eu fui
eleito, sofri uma pressão muito forte, mas muito forte mesmo.
Não só por parte da companhia, que ela tinha lá os seus
prepostos, que mandavam e desmandavam no sindicato, como pela
ex-diretoria que tinha sido derrotada e por muitos e muitos
membros, companheiros do sindicato, que ainda não tinham
confiança comigo.
Eu tive que
trabalhar forte, trabalhar com todo afinco, todo afã para poder
ganhar a confiança de meus comandados.
Obras no sindicato
Quando eu fui
para o sindicato, a sede era um barracãozinho encostado num muro
de pedra, que estava caindo aos pedaços. Não só a sede, a
ex-sede do sindicato, que era num pracinha que eu não sei o nome
hoje. Os móveis estavam todos podres, porque ninguém que passou
por esse sindicato, nem o ex-presidente que eu substituí, como
os antecessores, se interessaram pelos móveis do sindicato.
Agora, tenho que fazer uma ressalva: meu antecessor ele foi...,
lutou também com muita dificuldade para conseguir iniciar a
construção de uma sede na rua Tieté. ... A da rua Carijós foi a
que ele começou. Ele descontou, teve um desconto na mão, na
folha dos operários para construir a sede. E deixou, isso ele
deixou, honra seja feita, dinheiro suficiente para que fosse
paga a construtora que construiu essa sede de três andares da
Tieté, a construtora Barbosa Roscoe, não se se existe ainda essa
construtora. De forma que isso eu tenho que louvar esse
presidente que ele deixou. Mas só deixou a sede começada. A sede
foi terminada por mim, foi mobiliada por mim através de
concurso.
Mas a sede do
sindicato foi mobiliada por mim, desde o terceiro pavimento até
o primeiro. E tudo, fiz isso através de licitação, por concurso
público. Ganhou a maior marca de móveis, parece, se não me falha
a memória, Elmo. De forma que eu fiz a inauguração da sede, eu
fiz o mobiliário da sede, e começamos a trabalhar na sede nova.
Eu e todos os funcionários da companhia, cujo nós... do
sindicato, cujo nós temos ainda hoje vivos lá em Monlevade... a
Nilza Roberto, que foi uma ex-secretária muito eficiente. Eu
tenho até um retrato dela, porque eu fui lá a pouco tempo e vi o
retrato mais ela. Eu sentado no carro do meu filho Gerson. 1959.
E,
posteriormente, eu concorri com mais cinco chapas, sendo que
essas cinco chapas que concorreram contra a minha pessoa... eu
concorri à reeleição. Os votos que as cinco chapas ganharam não
eram a metade do que eu ganhei. Ganharia com a maioria absoluta.
Fui reeleito uma vez. Fiquei a primeira vez dois anos, depois
fui reeleito pra ficar mais dois anos. Praticamente, entrei no
sindicato foi em 1960. Tomei posse em 60.
Benefícios sociais no sindicato
Eu gostaria de
deixar bem claro com referência à sede do sindicato de João
Monlevade o seguinte: que, quando eu inaugurei a sede do
sindicato, eu deixei lá, para benefício dos meus companheiros
associados, uma funerária funcionando no terreno do sindicato.
(...) A única coisa que os familiares, que os associados dos
familiares do associado que falecia tinha que apresentar era
apenas o atestado de óbito e o tamanho do associado para que
fosse confeccionado o caixão. E os caixões lá eram todos de um
tipo só, não tinha negócio de caixão especial pra um nem pra
outro, tudo era igual. E outra coisa também que eu quero deixar
claro, é o seguinte: quando eu saí do sindicato, eu deixei mais
três veículos: tinha um carro funerário próprio, tinha uma
jardineira, que fazia o transporte da diretoria, aliás, não era
bem uma jardineira, era um espécie de uma kombi, fazia o
transporte da diretoria, e, além disso, deixei um caminhão
também. Todos eles em perfeito estado de conservação e
funcionando.
E deixei mais:
dentro da sede do sindicato, uma farmácia, não do sindicato,
porque o sindicato não podia e não pode ter nada que venha ser
explorado em benefício próprio, mas sim em favor dos associados.
Deixei uma farmácia completa, com remédios populares para todos,
vendidos para os operários, mais barato. E isso aconteceu
durante a minha gestão. Deixei também um cômodo da sede do
sindicato com quatro cadeiras de barbeiro funcionando em pleno
vapor, com todos os materiais assentados para que os barbeiros
pudessem aparar a barba e o cabelo de todos os meus associados
com desconto de 50% do preço da praça. Tudo isso eu fiz com o
único interesse de beneficiar os associados, e não com o
interesse do sindicato ganhar dinheiro.
O golpe de 64 e a saída do sindicato
Fiquei até 1964,
até a revolução de 64. Gostaria de deixar [registrada] também
uma passagem muito triste que eu tive no sindicto, quando eu fui
preso, eu tive os meus direitos políticos cassados. Porque, além
de ser presidente do sindicato, eu fui vereador da comarca de
Rio Piracicaba por duas legislaturas consecutivas. Eu era do
PDT, não, PTB. Eu era do Partido Trabalhista Brasileiro. E quero
deixar bem claro uma coisa pra vocês também. Foi uma das coisas
que eu fiz com maior prazer foi ser representante nem só dos
operários de João Monlevade, como também do município de Rio
Piracicaba. Na época eram três anos. Foi de 58 a 61, 61 a 64.
[Quando houve eu
golpe, eu] estava ainda eu atividade, não só como presidente do
sindicato, como também vereador de Rio Piracicaba. (...) Então,
o pessoal de Rio Piracicaba que já tinha uma pequena desavença
com todos os vereadores de João Monlevade, eles aproveitaram e
nos afastaram também da Câmara de Vereadores, (...) Eles nos
afastaram e lá já viemos, de dentro da Câmara Municipal de Rio
Piracicaba, presos. Eu, Geraldo Oscar de Menezes, Zacarias
Assunção, vocês lembram muito bem que foi, quem era Zacarias
Assunção lá em Monlevade, era um enfermeiro. Nós saímos presos
lá da Câmara, já viemos direto para o Dops, Departamento de
Ordem Política e Social, de Belo Horizonte. Ali nós ficamos
presos por 30 dias.
Eu quero dizer
pra vocês também, quero deixar bem claro, que fique bem gravado:
nosso presidente, Luís Inácio Lula da Silva também foi um grande
sindicalista. Eu posso dizer pra vocês o seguinte: ele esteve
preso 31 dias e eu tive 30 dias. Ele teve num mês de 30 dias,
eu tive num mês de 30 dias. Mas graças ao pai celestial e com
muita honra tanto para ele como para eu, nós nunca negamos as
nossas origens, mesmo sendo um simples operário metalúrgico.
(...)
A libertação
Eu tenho que
agradecer à minha esposa que, além de ser mãe de meus filhos, é
uma esposa dedicada e, através dela e de conhecimentos que tive
quando estava no sindicato, um antigo deputado, doutor
Austregésilo Mendonça... Ela se empenhou com esse deputado e ela
foi à IT4 [?], na rua Santa Catarina, que era sede da IT4 e aí
ela ficou várias e várias horas passando fome, passando
humilhação, porque eu já estava preso há mais de 20 dias e ela
desesperada porque sentia saudades [?] do pai dos filhos dela
como também do companheiro. Até que ela, através de pedidos de
um dos diretores da IT4, um general, que me falta o nome agora
de memória, ele se interessou e deu a ela uma autorização para
ir lá no Dops e solicitar do dr. Davi, que era o diretor do Dops,
a minha soltura porque eu já tinha mais de 30 dias que estava
preso. Foi através dela e desse deputado, ex-deputado federal,
dr. Austregésilo Mendonça [/ininteligível/], ex-coronel,
conseguiram a minha libertação.
[...] Quando ela
conseguiu a minha libertação, eu estava detido no Dops. E eles
achavam que eu estava residindo em João Monlevade. Falaram
comigo... dr. Davi ainda brincou comigo: ó, você pode ir embora,
que você vai ter que viajar para João Monlevade hoje. Eu falei
pra ele: não, eu vou ficar aqui de hoje para amanhã, porque eu
estou morando, atualmente, aqui em Belo Horizonte, no bairro
Padre Eustáquio. Morava no bairro Minas-Brasil. E aí ele falou:
quem sabe você quer ficar mais tempo? Eu falei: Deus me livre,
doutor. Eu estou dando graças a Deus que o senhor está me dando
ordem de saída. E depois eles viram que eu não tinha nada
daquilo que eles falavam. Fizeram uma representação contra minha
pessoa, ajudados, é claro, por alguns diretores ds Belgo-Mineira,
porque eu fazia exigências “absurdas”. A Companhia Belgo-Mineira
[disse] que eu era arrogante. Eu fazia exigências tão
“absurdas”... as exigências que eu fiz, todas elas eu ganhei,
uma através de greve. Agora, quero deixar bem claro: [muito
ruído] ela pagava pouco, mas pagava direitinho.
Eu lutava para
que meus colegas de trabalho tivessem um pedaço de pão maior na
mesa para seus filhos. Porque eu via a diferença que havia entre
a alimentação que um brasileiro humilde como eu ... [ muito
ruído]. Então eu queria que a companhia reconhecesse que o
operário é que, que o operário brasileiro é que dava pra ela o
lucro que ela ganhava, que ele é que dava pra ela toda a riqueza
que ela possuía.
A ida para Belo Horizonte
O caso é o
seguinte: vim morar em Belo Horizonte na casa de minha irmã, que
hoje não existe mais. Vim morar com minha irmã, vim morar de
favor na casa dos outros. (...) quando saí de João Monlevade, me
escorraçaram lá de João Monlevade, dizendo que eu tinha que
entregar a casa, que a casa era da Companhia Siderúrgica
Belgo-Mineira, eu tive que sair de uma hora para outra, larguei
tudo que eu tinha lá. Não tinha nada de valor, mas tinha valor
estimativo, [tal como] cama, colchão, guarda-roupa, armário.
Geladeira eu tinha porque ganhei, os operário me deram. Tive que
deixar tudo para trás [para que] entregasse a casa limpa, vazia,
fisicamente, de pessoas. Então, eu tive que sair correndo
[quase?] de João Monlevade. E assim o fiz e entreguei a casa
limpa fisicamente, só ocupada dos meus cacarecos.
No outro dia,
meu filho mais velho é que tirou a mudança de lá num caminhão
emprestado pela companhia de um grande conhecido que eu tinha
lá, que é o José de Castro Filho. Então, ele emprestou o
caminhão para que meu filho pusesse as coisas que eu possuía,
que estava ocupando espaço físico dentro da minha residência e
veio... minhas coisas vieram para Belo Horizonte. Ficaram num
lugar que eu nem sabia onde era, porque, na época em que meus
móveis vieram, eu não tinha ainda casa, eu estava na casa de
minha irmã e lá não cabia minhas... [/ininteligível/].
Posteriormente, é que eu fui as poucos... adquiri uma residência
lá no bairro Minas-Brasil, sem água, sem luz e com as maiores
dificuldades, eu tive que entrar para dentro da casa no escuro.
Na época, eu tinha 8 filhos... Quero esclarecer o seguinte: eu
tinha dois filhos, tinha não, tenho dois filhos que trabalharam
na Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, daí, posteriormente
vieram... [/ininteligível/]. Um é esse aqui. O outro é... também
vocês vão conhecer. O mais velho tinha vinte e pouco anos. E
tinha recém-nascido. E tiveram que mudar comigo, de uma hora
para outra. [/ininteligível/].
A luta pela sobrevivência
Eu gostaria de
deixar claro que, quando eu mudei pra minha casinha, que não
tinha luz nem água direito, eu comecei a batalhar para que eu
pudesse trabalhar com... trabalhar para que eu pudesse dar à
minha família aquilo que eles mereciam e têm direito, que todo
ser humano tem direito, o alimento e cama. Aí fui em várias
companhias em Belo Horizonte, e todas elas me fecharam as
portas. Quando eu vi que não tinha mais condição de trabalhar
nas siderúrgicas, que era a única profissão que eu sabia,
metalúrgico, eu resolvi ir para São Paulo.
Mas, antes de
mudar para São Paulo, eu consegui, na casa onde eu morava, abrir
um pequeno bar, na esquina da rua onde eu morava, que era uma
pracinha, mas como eu sempre tive como princípio, nunca
colaborar pra a desgraça de meus semelhante, eu achei que vender
pinga, vender cachaça para aquelas pessoas que, às vezes
deixavam de levar um pão para casa, para beber uma cachaça, eu
achei que aquilo não estava bem e resolvi abandonar a profissão
de vendeiro e mudei para São Paulo. Lá em consegui, em uma
firma,a mesma profissão que eu tinha lá no laminador de
Monlevade, eu já entrei lá como encarregado geral. E trabalhei
pouco tempo, porque adoeci, não tive mais condições físicas de
continuar trabalhando. Mas, na minha profissão lá, eu fui mestre
de laminador também em São Paulo, fazia o câmbio que... em
Monlevade era troca que nós fazíamos e, em São Paulo, o nome era
câmbio. A troca que nós fazíamos era câmbio. E eu trabalhei
nessa firma pouco tempo, porque adoeci, tive que voltar
novamente para minha família, para Belo Horizonte.
Quando eu fui
para São Paulo a primeira vez, eu fui sozinho. Da segunda vez,
eu fui com minha família. Agora, eu quero dizer também o
seguinte: eu lutei com muita dificuldade... a segunda vez que eu
voltei para São Paulo, porque não encontrava emprego mais em
Belo Horizonte, eu fui trabalhar num serviço completamente
diferente que eu nunca tinha pensado em minha vida que teria um
dia. Mas volto a dizer pra vocês: trabalho dignifica o homem. A
gente não deve menosprezar trabalho por pior que ele seja. Eu
fui zelador de uma instituição católica... católica não, uma
instituição que existe até hoje, da qual eu faço parte como
servo de Deus. Que é a Igreja de Jesus Cristo [dos Santos?] dos
Últimos Dias, popular, vulgarmente conhecida como igreja dos
Mórmons. Eu trabalhei como zelador nesse templo, já nesse tempo,
nessa igreja, muito tempo. Foi um ano e [uns] meses.
Posteriormente,
saí, porque achei um outro que me dava mais interesse porque,
sem ter conhecimento nenhum, fui ser gerente de um pequeno
supermercado lá em Santos. Também trabalhei pouco tempo porque,
infelizmewnte, o serviço lá era muito pesado e eu não andava
nada bom de saúde, até que tive que voltar, devido à minha
saúde, definitivamente para Belo Horizonte, até que vim ser
aposentado por invalidez. Quando fui aposentado por invalidez,
estava com a idade de setenta e poucos anos. Setenta não, minto,
tava com sessenta e poucos anos de idade, porque tenho mais de
20 anos que tô aposentado, agora, não como inválido, mas agora
fui aposentado pela Lei da Anistia,
A ida para Ouro Branco
Em 1995, eu já
estava cansado de ficar na cidade grande, que era Belo
Horizonte, e eu tinha e tenho um filho que morava e trabalhava
lá em Ouro Branco e foi, fez o convite para eu vir morar numa
cidade do interior. Aí nós mudamos em 1985, mudamos aqui para
Ouro Branco. Eu vim para cá para poder ter... Eu vim para cá,
porque meu filho mais velho nos convidou e vim para morar na
casa dele. Meu filho trabalha na Açominas, trabalhava. Hoje ele
é aposentado também.
Toda vida eu
tive esse sonho: ter minha casa própria. Porque, igual eu tava
falando com vocês: morei lá em Monlevade, sempre morei em casas
boas, não vou negar para vocês que, nesse ponto aí, a companhia
também tinha, dava seus barracos. (...) Mas tinha casas boas
especiais para os estrangeiros e boas, algumas, para alguns
brasileiros. E eu sempre tive comigo e por insistência de minha
esposa, que ela queria ter o teto nosso, para que nós, na nossa
velhice, pudéssemos falar: não, nós moramos no que é nosso,
podemos morrer tranqüilos, porque estamos morando no que é
nosso. E, ajudado pelo meu filho, que nos deu mais de 10 anos de
moradia sem cobrar aluguel, apenas que conservássemos a casa que
ele tinha possuído. Deus ajudou que consegui juntar um pouco de
dinheiro, compramos esse lote aqui e também com o dinheiro pouco
que eu recebi do INSS, comecei a construir, eu não, quem começou
foi minha esposa, que o dinheiro que eu recebi do INSS deu pra
fazer o alicerce da casa, dessa casa onde hoje nós estamos
morando, mas quem construiu praticamente do alicerce até a
última telha foi minha esposa, porque eu, na cadeira de rodas,
não podia vir aqui nem ver os pedreiros trabalharem.
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