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João Paulo Pires de Vasconcelos: um
referencial no sindicalismo brasileiro
O dia de nascimento de João Paulo Pires
de Vasconcelos é significativo: 8 de março de 1932. Dia internacional
da Mulher, data de luta, portanto. E o espírito combativo iria marcar
toda a sua trajetória.
O futuro sindicalista nasceu em Belo
Horizonte, em uma família de 11 irmãos. A mãe era de origem urbana. O
pai, engenheiro especialista em urbanização, que foi convidado pelo
então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitscheck, para planejar
o crescimento da capital, tinha raízes rurais.
Segundo João Paulo, o pai trabalhou para
o Estado durante 36 anos e, ao morrer, em 1955, a pensão a que teve
direito a viúva era menor do que o salário mínimo.
João Paulo começou a trabalhar cedo, aos
14 anos, atuou na área de seguros, foi funcionário da multinacional
Morrison Knutsen e da Cemig e, com a morte do pai, assumiu os
trabalhos que ele realizava em seu escritório de topografia. Nessa
época, o futuro sindicalista não se envolvia em sindicalismo, mas
assistiu a várias assembléias comandadas por um líder sindical que lhe
serviria como referência: Armando Ziller, filiado ao PC do B e
presidente do Sindicato dos Bancários (que representava também os
securitários).
O caminho de João para Monlevade seria
aberto por um jornalista amigo de família, Cid Rabelo Horta, assessor
da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira.
Foi Cid que o indicou para a Samitri,
uma indicação que não vingou por questões salariais, e João Paulo
acabaria convidado a trabalhar na usina da Belgo em João Monlevade. Em
junho de 1960, seguiria para esse distrito de Rio Piracicaba, que era,
em termos de logística, quase completamente isolado, atendido por uma
estrada de ferro onde a viagem até a capital durava em torno de 6
horas. A BR-262 (depois, 381) ainda estava apenas em fase de
terraplenagem.
Em 1960, o sindicalismo começava a
apresentar crescimento e, em Monlevade, essa dinamização do movimento
sindical era encabeçada por Geraldo Oscar de Menezes, que assumiu o
Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Rio Piracicaba em 1959.
João Paulo era vizinho de Geraldo Oscar, na rua Beira Rio, e se filiou
ao sindicato em 1961.
Novo sindicalismo
A ação sindical combativa que Geraldo
Oscar inaugurou em João Monlevade iria se consolidar e ganhar novos
contornos pelas mãos de João Paulo Pires de Vasconcelos, considerado
um dos principais líderes do chamado “Novo Sindicalismo”,
representado, a partir dos anos 70, também por sindicatos de
metalúrgicos do ABC paulista e pelo Sindicato dos Bancários de Belo
Horizonte, dentre outros.
O “Novo Sindicalismo” tinha como
principais características “a conscientização dos trabalhadores a
partir do trabalho de base, o fortalecimento dos sindicatos e das
oposições sindicais combativas, a solidariedade de classe, o incentivo
à combatividade para alcançar as reivindicações, o questionamento da
estrutura sindical corporativa vigente, e a origem dos seus
dirigentes, que não vinham dos partidos de esquerda tradicionais”.
A chegada de João Paulo à presidência do
sindicato de Monlevade enfrentou resistência da diretoria da Companhia
Siderúrgica Belgo-Mineira. Conforme relembra Wilson Bastieri, que
integrou a executiva da chapa encabeçada por João Paulo, nas eleições
sindical de 1969 e 1972 a empresa fez campanha contra o que rotulou de
“Chapa dos Contramestres”, numa referência ao fato de vários
integrantes serem supervisores (“contramestre” era uma designação para
certo nível de chefia).
A chapa 2, de João Paulo, foi derrotada
pela chapa 1, de Ramiro Ribeiro, em 69, mas conseguiu se eleger em 72.
Ele presidiria a entidade por dois mandatos, até 1978. Foi nesse ano
que ele comandou um das duas primeiras greves ocorridas no Brasil
depois da decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5). A outra foi no
ABC, sob comando de Luiz Inácio da Silva, o Lula.
João Paulo lembra que a greve de 78 foi
extremamente estressante. Foi ao final dela que morreria, no dia 11 de
setembro, José de Alencar Rocha, antes de assumir a presidência do
sindicato. Em depoimento à equipe do Centro de Referência e Memória do
Trabalhador (Cerem), em 2007, João Paulo disse que, embora tenha sido
dito que Alencar, participante ativo do movimento paredista, morreu de
acidente de automóvel, na realidade a razão da morte foi um infarto
fulminante quando ele se encontrava ao volante.
Depois de se afastar da presidência do
sindicato, João Paulo foi transferido pela Belgo-Mineira para Sabará,
com a justificativa de que era para montar um fábrica de tubos na
usina daquela cidade. Lá, um certo dia, os operários começaram a se
movimentar e recorreram a ele para encabeçar um movimento
reivindicatório. “Começaram a me procurar. No começo eram poucas
pessoas, no final era uma assembléia. Então, paramos a usina de
Sabará, que não parava desde os anos 40”, lembrou João Paulo no mesmo
depoimento.
Depois dessa paralisação, a Belgo
transferiu João Paulo para o prédio da administração central da
empresa, em Belo Horizonte. “Me deram uma área grande dentro de
Fabriciano para eu projetar um loteamento para ela. Isso já foi em
1979, eu quase morri de tanto trabalhar. Eu tinha que estar no
escritório às 7h30 e saía às 17h30”. Nesse mesmo ano, começaram a
estourar greves pelo estado de Minas afora, mas sem a participação dos
sindicatos, segundo João Paulo. “Os sindicatos se acomodaram. A
primeira foi em Divinópolis. Eu tive que viajar daqui para lá e voltar
para aqui às 7h30, passar a noite lá, administrando greve 23 dias. Eu
dormia, cochilava um pouquinho dentro do carro, depois voltava a
cochilar dentro do carro, para pegar às 17h30”, lembrou o
sindicalista.
A próxima parada de João Paulo seria
novamente João Monlevade, para onde ele insistiu para retornar. A
empresa aceitou, mas, segundo ele, “não deixaram mais voltar para
dentro da usina” e o transferiu para escritório fora da área
operacional. Mas aconteceu mais uma greve, em 1980, sob o comando de
José Villar Sobrinho, que recorreu a João Paulo para solicitar apoio.
Mais uma vez, ele se engajaria em um movimento paredista em favor dos
trabalhadores.
As ações combativas de João Paulo e seus
companheiros chegaram a garantir aos funcionários da Companhia
Siderúrgica Belgo-Mineira, nos anos 80, os salários de padrões mais
civilizados no ramo siderúrgico.
CUT e Congresso
João Paulo integrou a primeira direção
da Central Única dos Trabalhadores, criada em 1983. Permaneceu três
anos. Ele apresentou a carta de demissão durante um congresso nacional
da CUT, no Rio de Janeiro, por não ser atendida sua sugestão para que
a sede da entidade fosse em Brasília e não em São Paulo, “para
acompanhar o governo e o Congresso Nacional”.
Apesar de ser avesso à participação
partidária, João Paulo acabaria se tornando deputado constituinte, que
ajudaria a lavrar a Constituição Federal de 1988. Segundo ele, houve
pressão de sindicatos para que se engajasse na política.
Em 9 de fevereiro de 1980, dirigentes
sindicais reunidos no Colégio Santa Marta, em Belo Horizonte, lavraram
um documento orientando os objetivos da ação sindical. Uma decisão
importante dessa reunião, de acordo com João Paulo, era que indivíduos
no exercício de mandatos sindicais não poderiam exercer mandato
político-partidário.
Uma reunião em Governador Valadares
decidiria pela indicação do nome de João Paulo para concorrer à vaga
de deputado constituinte, ainda que contra sua vontade. “Levei esse
documento [formulado no Colégio Santa Marta]. Falei: gente, não posso,
faço parte de uma diretoria de sindicato”, disse João Paulo. Mas ele
seria eleito e conseguiria gravar direitos sociais importantes na
Carta Magna e exerceria dois mandatos, no período de 1986 a 1993.
Depois, mesmo fora da política, nunca
cessou de redigir e encaminhar a políticos e entidades no Brasil e no
exterior correspondências com denúncias sobre condições precárias de
trabalho ou sobre políticas econômicas danosas aos trabalhadores.
João Paulo é secretário da CUT Vale do
Aço e assessor da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias
Extrativas de Minas Gerais (Ftiemg).
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