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Leonardo Severo

O historiador
Antonio Marques |
Por Wir Caetano (Sind.
Metalúrgicos de Monlevade)
“Não esquecer é o que importa”. É assim que o historiador paulista
Antonio Marques, 47 anos, sintetiza o significado da preservação da
história não só para as lutas, mas para a própria vida dos
trabalhadores. “O exercício da memória amplia
os conhecimentos históricos e, inconscientemente, tece laços de
solidariedade”, completou. |
Antonio,
que é também mestre em arquivística pela Universidade Carlos III, de Madri
(Espanha), coordena, desde o ano 2000, o Cedoc CUT (Centro de Documentação e
Memória Sindical, da Central Única dos Trabalhadores).
O Cedoc, criado em 1999,
fruto de uma parceria entre a CUT e o Centro de Documentação e Memória da
Universidade Estadual Paulista (Unesp), não apenas cuida de gestão dos
documentos da própria Central, como também orienta entidades sindicais para
organização e preservação de seus arquivos.
Em entrevista à equipe
do Projeto Memória, do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de João
Monlevade, por email, Antonio Marques disse que “a CUT
inovou ao implantar o Cedoc, pois assumiu para si
a preocupação de preservar os seus documentos”.
O
historiador falou sobre o cenário dos arquivos operários no Brasil e no
exterior e destacou a importância da utilização de metodologia adequada para
a preservação dos documentos. “A origem da documentação, ou seja, como se
deu a sua produção e acumulação, é o primeiro aspecto a ser considerado na
organização de um acervo”, frisou Antonio.
Confira os
principais trechos da entrevista.
Existe, entre os sindicatos do Brasil e do exterior, uma consciência
consolidada sobre a importância da preservação de sua história?
Antonio:
Recentemente, no Cedoc CUT, fizemos um levantamento de publicações sobre
história de entidades sindicais e fiquei surpreendido com o número de
sindicatos que lançam livros contando a sua história. Este número ainda é
muito pequeno, mas nos dá mostra que a percepção histórica está presente e
se manifesta em momentos importantes, como no aniversário de 10 ou 20 de
anos de uma entidade. Entretanto, devemos reconhecer que não há uma
consciência na preservação dos documentos que permitem escrever esta
história e muitas dessas publicações começam dizendo sobre a dificuldade de
ter acesso às fontes de pesquisa. Como todas as entidades sindicais produzem
documentos, elas deveriam se preocupar em manter seus arquivos organizados
desde o primeiro momento. No passado, isto era bem mais difícil devido à
forte repressão estatal e policial e, por isto, surgiram centros de
documentação especializados na preservação de arquivos operários. Isto
ocorreu em países da Europa, da América Latina e do Brasil. No caso europeu,
temos conhecimento que em alguns países, como Alemanha, Itália e Espanha, as
centrais sindicais têm órgãos voltados diretamente à recuperação,
organização e preservação dos documentos. Na Espanha, todas as centrais
sindicais têm arquivos históricos, os quais estiveram voltados,
primeiramente, a recuperar a documentação do movimento operário e sindical,
derrotado na guerra civil espanhola e duramente perseguido durante a
ditadura de Franco. Na América Latina e Brasil, muitos centros de
documentação nasceram vinculados às universidades, com o propósito de
garantir a preservação de documentos do movimento operário que corriam o
risco de se perder definitivamente. Atualmente muitas universidades públicas
brasileiras contam com centros de documentação atuando nesta perspectiva.
Podemos dizer que existe certa consciência da necessidade de resgatar
histórias sindicais, mas a mesma consciência se manifesta muito mais tímida
quando se trata de preservar a documentação, e sem esta não se faz
história.
A
memória operária se confunde com a memória sindical?
Consideramos que o movimento operário deve ser visto sob uma perspectiva e o
movimento sindical de outra, ainda que pareçam a mesma cara da moeda e se
interliguem. O primeiro é muito mais amplo que a vida fabril e sindical,
passando pelas relações sociais na cidade e bairro onde os operários vivem,
nas escolas que eles ou os filhos estudam, no clube de recreação e descanso
que freqüentam, ou seja, todos os aspectos da vida social. Visto desta
forma, percebemos que o movimento operário é exclusivamente urbano e
industrial. Portanto, onde estariam compreendidas as regiões e cidades sem
indústrias de porte e os trabalhadores rurais? Um outro dado é que o termo
“movimento operário” é claramente ideologizado, identificado com imagens da
esquerda política partidária. Por conseguinte, onde estariam compreendidos
os operários que “ainda não possuem uma consciência de classe” e que nas
eleições votam em políticos de centro e de direita? O movimento operário foi
e é vinculado aos setores explorados da sociedade e, com isso, ele passou a
abarcar também uma série de outros movimentos de contestações sociais que
não são necessariamente operários. Tudo isto são questões complexas, às
quais muitos estudiosos dedicam anos a fios. Visto desse modo, concluímos
que a memória operária não se confunde com a memória sindical. Além disso,
devemos reconhecer que a maioria dos operários, os demais trabalhadores
urbanos e os trabalhadores rurais está alheia à vida sindical e, na maior
parte das vezes, apenas uma minoria participa do sindicato. Isto pode ser
constatado pelo baixo número de trabalhadores sindicalizados no Brasil.
Qual o lugar da memória na luta dos trabalhadores?
Quando se está referindo a memória dos trabalhadores, deve-se compreender
que se está tratando de memória coletiva e é ela que permite conformar
relações entre homens e mulheres que fazem parte de um mesmo sujeito
coletivo, mas que muitas vezes não se vêem portadores dos mesmos interesses
e necessidades. O exercício da memória amplia os conhecimentos históricos
e, inconscientemente, tece laços de solidariedade dentro desse sujeito
coletivo, por isso ela deve ser uma prática do dia-a-dia e fazer parte do
cotidiano das entidades sindicais. Isto é possível de várias formas,
mantendo os arquivos organizados, organizando pequenas exposições, lançando
um pequeno livro ou mesmo um folheto sobre acontecimentos da categoria e o
seu entorno, mantendo, numa pequena seção no boletim do sindicato,
depoimentos de antigos militantes em assembléias, ou seja, tudo que permita
recordar é válido. Deve-se estar atento na seleção desses acontecimentos,
não resgatar apenas aqueles considerados relevantes e também não ficar
restrito à história sindical, pois, como já dissemos, o movimento operário é
mais amplo que o movimento sindical. A memória tem lugar cativo não apenas
na luta, mas na vida dos trabalhadores, e os sindicatos podem estimular
realizações que permitam dar relevância à temática. Não esquecer é o que
importa.
Que cuidados são indispensáveis na organização de acervos sindicais?
Os
acervos sindicais são formados basicamente por documentos de arquivo, e o
primeiro instrumento que tem que ser elaborado é um plano de classificação
dos documentos de acordo com as funções e atividades do organismo produtor,
no caso, o sindicato. Esse plano é para ser usado no arquivo corrente e
permite a organização dos documentos ainda nesta fase, não permitindo sua
acumulação desordenada. E não importa se o documento está no suporte
tradicional em papel ou em suporte eletrônico. Os documentos arquivísticos
eletrônicos também devem passar pelos mesmos procedimentos que o documento
em papel, e é fundamental a participação de um profissional de informática.
Os documentos devem ser dispostos em pastas, caixa e mobiliários apropriados
que facilitem o manuseio e a preservação. O mesmo se aplica aos outros tipos
de documentos, como boletins, panfletos, cartazes e fotografias, que a minha
experiência mostra que, junto com os documentos de arquivo, comporão quase a
totalidade do acervo. Considero ainda relevante a existência de um único
setor para onde possa ser transferida a documentação após seu uso corrente e
que tenha uma pessoa responsável pelo acervo. Todavia, o cuidado fundamental
é a conscientização da importância da preservação documental e da memória
histórica; havendo isto, já avançamos muito.