Em
sua casa, na rua Wilson de Souza, bairro Laranjeiras, Alencar Mendonça
Ramos, 23 anos, fez questão de dizer: “a pessoa que deu a vida
pela luta merece ser ao menos reconhecida”. Ele se referia ao pai,
Antônio Ramos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos
de João Monlevade na gestão 1987-1990, que se matou no
dia 24 de abril de 1999. É a história desse sindicalista
- cuja trajetória está ligada a conquistas como a implantação
da “tabela francesa” (*) para humanizar o sistema de revezamento -
que a equipe do “Projeto Memória” foi resgatar junto à família
dele, no último dia 1º.
Antônio Ramos, ou simplesmente Ramos, como era conhecido por familiares,
amigos e companheiros, nasceu em João Monlevade (MG), filho primogênito
em uma família de sete irmãos. O pai, José Guilherme,
supervisor da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, não
deixou de manifestar sua resistência quando o futuro sindicalista
começou a se envolver com as lutas sindicais. “Lembro-me do Sô Zé falando:
você está cavando a sua cova”, conta Maria Leonides, a Leo,
viúva de Ramos.
Leo diz que foi “muito
difícil” conviver com os desafios que
a vida sindical impunha na época. Quando ela se casou, no dia
27 de julho de 1979, Ramos, então com 30 anos, já estava
engajado no movimento operário, estimulado, segundo ela, pelo
padre Renato Stomarq, militante das causas populares, que celebrou o
casamento.
“Era uma política brava, quinhentas vezes pior do que essa agora”,
conta Leo, que diz ter lembranças duras de setores da imprensa
monlevadense que foram implacáveis com Ramos. O filho Alencar
complementa: “diziam coisas que nada tinham a ver, para jogar a opinião
pública contra ele”.
O aprendizado da
política e o Grupo de Mulheres
Apesar de problemas
decorrentes da “política brava” e de crises
de depressão de Ramos, a trajetória do sindicalista deixou
frutos políticos também dentro da própria casa.
“A visão política que tenho hoje devo muito a meu pai”,
conta Alencar. O ensinamento começou tão logo ele nasceu,
já que o pai lhe deu o nome de Alencar em homenagem a José de
Alencar Rocha, que morreu em setembro de 1978, antes de assumir a presidência
do sindicato.
Já Leo
lembra que sua casa era um verdadeiro “recanto para reunião”.
Ela conta que, às vezes, “tinha 19 carros” de pessoas de movimentos
populares e políticos em frente à sua residência.
“[João Batista dos] Mares Guia, Virgílio Guimarães... virei babá desse
povo todo”, diz. Mas o mais importante nessa história foi o papel
que a professora Celeste Maria Semião
(já entrevistada pela equipe do Projeto Memória) desempenhou
nesse processo de encontros e reflexões.
Leo conta detalhes:
“A Celeste queria o quê? Os homens avançavam
nessa caminhada e as mulheres se deprimiam, se queixavam, se neurotizavam.
Então, ela teve a brilhante idéia de condensar essas mulheres
para um lado, trabalhando as dificuldades. Aí, veio aquela menina
da Casa do Trabalhador, Regina Fazzi, para coordenar o movimento, orientar...”.
Nascia o Grupo de Mulheres, cujo papel no apoio às lutas dos metalúrgicos
de Monlevade e no diálogo com a comunidade foi fundamental.
Segundo Leo, o grupo
acabou quando o imóvel onde se reunia, chamado
“Nossa Casa”, foi fechado pelo prefeito Carlos Moreira, em seu primeiro
mandato (2001-2004). “[Lá] tinha psicólogo, trabalho artesanal.
Em toda cidade avançada, existe a Nossa Casa, onde as pessoas
com dificuldades vão pra lá. Vou liderar o grupo de mulheres
e fazer [o prefeito] voltar com Nossa Casa”, diz.
Atualmente, Leo Ramos,
que tem também uma filha (Edelvais, de
26 anos), faz parte do grupo “Oração e Vida”, da Igreja
Católica, e trabalha na Pastoral Carcerária, dando apoio
a familiares de presos.

O sindicalista Ramos junto à professora Celeste
(acervo de Leo Ramos)
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(*)
A tabela francesa consistia em semana de 6 dias de trabalho,com três
turnos e 96 horas de folga
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Brevemente,
mais informações sobre Ramos na seção "Histórias
de Vida", que será
inaugurada no site do "Projeto Memória" e trará transcrições
de depoimentos, fotos e, em alguns casos, vídeos e reprodução
de documentos.